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quinta-feira, 30 de junho de 2016
Essência, minha melhor parte
sabe quando a gente descasca a tinta de uma parede descobrindo as cores que estavam por baixo, e se persiste no esforço consegue, finalmente, deixar aparente o tijolo, a origem, a parede como ela nasceu para o mundo, sua verdade por trás das cores que lhe foram forçadas por cima? eu me sinto por ora neste esforço contínuo e paciente, diário: raspar as camadas (muitas) de tintas que me pintaram por cima ao longo dos anos, no correr dos dias, desde quando não consigo me lembrar. libertar-me de tudo aquilo que me puseram nas costas sem ser meu de fato, sem que me pertencesse de modo profundo, verdadeiro, visceral. livrar-me das roupas que me vestiram sem que me coubessem perfeito, recusar-me às máscaras que quase me pegaram à carne. despir-me de todas as palavras, qualidades, defeitos, possibilidades e limitações que me penduraram ao pescoço, como longos colares de contas que me pesam há anos e cada vez mais, causando-me dores crônicas nas costas, nos ossos, na alma. arranquei-os, num gesto largo e definitivo. arrebentaram-se ao vento e cá estou, de peito descoberto, exposto ao vento, ao sol, à chuva e às lágrimas. e ao amor também, do mais profundo que existe: aquele que nasce de mim, em mim, para mim. aquele que carrega consigo aquilo que eu sou, de fato, sem fazeres de conta. estou nua, diante do espelho. assusto-me, mas a um só tempo sorrio, enquanto se me enchem os olhos. tudo ao mesmo tempo agora. esta nudez que me liberta, que me entrega a mim mesma. e se persisto, chegarei ao tijolo. à semente. à essência. àquilo que nasci já sendo, desavisadamente e sem explicação. aquilo que me forma, define e orienta. meu nome próprio. eu. estou muito perto de alcançar meus tijolos – e que bonito é isso.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
it will end in tears
Eu não sei por que, afinal, eu ainda te dou uma segunda chance. E uma
terceira, e uma quarta, e incontáveis chances, sempre prometendo a mim
mesma que sim, impreterivelmente: esta será a última. Ridículo. Será
este meu otimismo incorrigível, ou será mesmo apenas burrice, estupidez
pura e simples? – talvez seja apenas uma questão de ponto de vista.
Quando paro para pensar a este respeito, não me custa muito perceber o
absurdo da situação: um círculo vicioso que não se encerra nunca, ao
contrário, repete-se patética e incansavelmente sem que os envolvidos se
dêem conta da absoluta inutilidade desta repetição. Sim, eu sou um
deles. Sim, analisando a situação como quem vê de fora, com um mínimo de
isenção e racionalidade, tenho total consciência de seu absurdo. Sim,
rio de mim mesma, porque a dor é grande e rir de si mesmo é sempre uma
boa providência, desvia o foco, ajuda a atentar para outra coisa e quase
faz esquecer a ferida e a tristeza. E sim, ao final de cada volta deste
círculo estúpido, eu me recolho conformada, cordata feito uma boa
menina, e aceito fazer de conta mais uma vez que agora sim, que agora
tomaremos um caminho diferente, que afinal iremos adiante, seremos
outros. E assim recomeço a desenhar o círculo, com as mãos trêmulas e o
coração dolorido, mas sem um pingo de noção da realidade. Sem coragem
também. Até quando, meu deus, até quando?
Completamente apaixonada pelo "Bicho Solto". Leiam, vale muito!
Em desordem
Dia destes disse a um amigo com certa angústia, ‘não sei o que está acontecendo comigo’.
Mais tarde, solitariamente, admiti que não era bem verdade: sei bem o
que acontece – apenas tenho medo de dizê-lo em voz alta, como se colocar
finalmente em palavras aquilo que já sei e do que não posso fugir
exigisse uma valentia que por ora não me sinto capaz de ter. É como se o
dito, de súbito, tornasse o fato irrevogavelmente real e existente para
o mundo, portanto inegável, e me assusto com esta possibilidade, porque
ainda não sei para onde devo ou desejo ir. Muitas coisas acontecem ao
mesmo tempo e as idéias se me embaralham, estão todas desalinhadas e
rebeldes, estou confusa como há muito tempo não experimentava estar,
sinto-me perdida como uma criança abandonada sem aviso em uma casa de
doces, a meio caminho entre o êxtase e o desespero. Há em mim algo que
muito se alegra por estar vivendo uma coisa assim, sente-se presenteada
por este contentamento espantoso que há tanto tempo não experimentava,
enquanto uma outra parte quer esconder-se, poupar-se, proteger-se, teme a
esperança e sobretudo a entrega, que em última análise equivale à morte
– há sempre algo que deve morrer para dar lugar ao que quer recomeçar.
Mesmo dividida, contudo, esforço-me: em silêncio, concentrada como o
momento exige que esteja, dedico-me a fortalecer em mim a coragem e o
desejo pela transformação, mantenho a cabeça erguida tanto quanto posso e
não esmoreço, sigo em frente. Disto pelo menos eu sei: é para lá que eu
quero ir, adiante.
terça-feira, 29 de maio de 2012
Flor de ir embora.
E deste modo tenho levado a vida: um pouco a sério e um pouco de brincadeira, entre um sorriso e um suspiro. Às vezes rio e às vezes choro, às vezes brigo e às vezes deixo estar, às vezes quero e às vezes desisto, às vezes sou forte e grande de um tamanho maior do que todas as coisas e às vezes sou tão pequenina que nem chego a ser do tamanho de um botão. Tal é o movimento que a vida faz, um paradoxo que não se acaba e persiste. E quando já se achava que era possível descansar e ficar em silêncio, lá vêm desafios novos e outras possibilidades, coisas desconhecidas e mais desbravamentos. Gosto disso. Assusta, sim – não digo que não. Mas gosto, aprendi a gostar. Sei hoje que é possível encontrar felicidade até mesmo na dor e no susto (e ah!, são estas às vezes as mais bonitas alegrias), então me aventuro sem muitos temores, e se a vida pede que me lance, não meço a altura do tombo. Que me traga a vida todas as cores e sabores e sentires desconhecidos, o que houver para vir que venha, eu – de braços abertos. Aqui espero, em silêncio ou cantando as dores e as alegrias caso a alma peça por um pouco de cantoria. Acolho, aceito e saboreio, com toda cautela nascida de muito amor e muita vontade sinto o gosto, o cheiro, o toque; conheço, intimo, recolho e deixo que passe a existir dentro de mim – esta é a parte mais bonita, quando então vira vida, transforma-me, revoluciona e eu evoluo. Cresço um bocado, descubro coisas sem conta, padeço se houver que padecer porque às vezes é mesmo preciso. Seja como for, é semente que brota e floresce, embelezando. Em mim, o mundo. De mim, para mim, o mundo. Como dizia a canção: ‘flor de ir embora, eu vou / agora esse mundo é meu’.
"Bicho solto"
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