sexta-feira, 22 de julho de 2011

O que tu és.

 
 
"Tu és uma gaveta, és a gaveta no quarto onde te guardo. Eu sou o arrependimento, a mágoa, a garganta com espinhos, tu és uma gaveta. Eu sou mil presentes, mil e uma memórias de boas acções. Tu és uma gaveta. Tudo o que me deste cabe numa gaveta e não me deixou esquecer. Tudo o que te dei assalta-te os sentidos e ainda assim não te lembras. O amor dura enquanto a memória arde."

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Diagnóstico



O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos, despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidez. O amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de alho, que nesse caso não serve para nada. O amor e surdo frente ao Verbo divino e ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis beberagens com garantia e tudo.
Eduardo Galeano

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Que eu seja "o seu lugar no mundo"


Que meus braços sejam berço para o seu cansaço,
meus beijos coragem para suas batalhas,
meus olhos certeza da sua chegada.

Renata Fagundes

Feitiço do tempo

Com o tempo a gente aprende que nosso melhor amigo somos nós mesmos. Percebemos como é fácil focar naquilo e naqueles que realmente acrescentam. Trilhamos naturalmente o caminho da dissipação da nossa raiva e da nossa mágoa. Mais do que isso, sentimos na pele que o melhor remédio para a irritação e o mau-humor é dançar ao som de um bom samba-canção ou cantar bem alto uma música no Karaokê. Se errarmos a nota, ou tropeçarmos nos passos, não tem problema: teremos o dia seguinte para treinarmos novamente. Afinal, o tempo do prazer não urge, caminha devagar, no relógio das nossas emoções mais gentis.

Depois de um tempo, é nítido que bloquear aquele carinha escroto no MSN não é mais uma necessidade da sua decepção. Aliás, até aprendemos que o mundo virtual se derrete no compasso do botão Power e que portanto...não, não vale a pena. Você troca os minutos que gastava futucando o Orkut daquela amiga que você amava, mas que não te ama mais, pelos sites que tragam alguma boa informação para a sua carreira ou para a sua saúde. Ou então, você até descobre, ou redescobre, um livro. Um bom livro. E uma tarde sozinha, na praia, no shopping, ou numa livraria, lava a sua alma mais do qualquer show do Monobloco.

E aí, sabe aquele carinha que prefere pagode enquanto você curte rock e Chico Buarque, e que quis te levar para um Motel logo no primeiro encontro? Então, "não"...é isso mesmo, ele não combina com você. E a grande vantagem é que você perceberá isso e cairá fora sem se sentir culpada ou achando que vai morrer solteira. E até aquele rapaz bem gostosinho, super bom de cama, mas que não te dava o menor valor fora das quatro paredes, deixa de ser tão encantador assim.

A gente aprende a pensar com o cérebro de cima e não com o calor que corre entre as pernas da solidão. Talvez, pode até ser realmente que você passe o restante da vida solteira, mas a máxima "antes só do que mal acompanhada" será um lema sinceramente verdadeiro no seu estilo. Além disso, é impossível ser feliz sozinho porque simplesmente nunca estamos sozinhos, a não ser quando nos perdemos de nós mesmos.

Entre outras coisas, a melhor parte de se entregar à evolução do tempo é sacar que aprendemos a amar melhor as pessoas, amar com admiração, mas sem pieguices ou idolatria. Sacamos também que o que pensam sobre você é problema de quem pensa e que a nossa única obrigação é viverde acord o com a nossa verdade, com a humildade de entendermos que estaremos sempre no tempo do aprendizado.

Um dia, acordamos e entendemos que o nosso mundo é aquilo que chamamos de lar, e não o que entendemos como rua. E que o nosso lar é lugar onde o afeto da gente repousa. Aquele lugar onde suas energias são recarregadas apenas pelo fato de os seus pais te darem um abraço, seus amigos um carinho e seus sobrinhos uma gargalhada bem alta. Pode ser também aquele singelo barraco onde encontramos uma sopa bem temperadinha, água e almofadas confortáveis.

Com muita concentração interna, começamos a perceber também a unidade que existe em nós. Deixamos de ser um produto para a vitrine dos olhos dos outros. E ai, meu amigo...você saberá se vestir melhor para o seu biotipo e não para a MODA. A sua relação com o espelho será mais harmônica e gostar das suas gordurinhas a mais ou da sua perna fina será tão natural quanto o ar que respiramos. Deixe para os pirralhos mentais o ato de precisar pagar de gatinha ou gatinho, na esteira da auto-afirmação.

E as horas passarão sem o drama das urgências ansiosas. E ignorar quem te suga a energia não lhe dará nenhum trabalho. Os afetos que chegam e os afetos saem levam um pouco de ti, mas te deixam mais experiência, mais amor próprio, mais vida, mais inteira. Te deixam mais em si. E com tanta coisa no mundo que possa te estressar, você saberá priorizar aquilo que te alegra, que te provoca gozos de vida.

A sua educação não dependerá de ninguém, mas a sua paciência será o ingrediente secreto das especiarias dedicadas apenas aos merecem. Os outros...ah, estes você ignora. Naquela sutileza que só quem aprendeu a dar tapas na cara com luvas de pelica sabe.

Fica fácil, fácil como dois e dois são cinco. Pequenas lições que nos mostram que até quando dá errado, dá certo. Simplesmente, porque a vida não tem lógica alguma e a nossa única obrigação é entrar na roda e viver. Um foco não tão desfocado, uma euforia mais calma e decepções mais efêmeras. Eu não marquei na agenda os meus dias, apenas senti que chegaram. E neste dia, ou em todos os dias nos quais você perceber isso, finalmente saberá que a melhor coisa do mundo é quando o passar dos anos vem acompanhado da chegada daquele ingrediente maravilhoso chamado maturidade.

FONTE 

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Reforma.

Sabe o que é um coração
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
comecem a obra!
Por favor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.
Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Pitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões
Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.
(Elisa Lucinda)

Capricorniana

De 22 de dezembro a 20 de janeiro temos o sol na constelação de Capricórnio. Para os capricornianos natos o tema da responsabilidade, da subsistência material e da ascensão social é importante por toda a vida. Esse é sem dúvida um signo consciente dos limites que a realidade física nos impõe. Seu realismo chega a ser desconcertante…
O destino, a elevação e a carreira, aliados às construções sólidas povoam seu mundo interno e essa incansável e preocupada criatura trabalha até mesmo dormindo. Parece de fato que a árdua tarefa de estruturar, superando as limitações impostas pela realidade, foi inventada por algum capricorniano sem assunto. Até na hora de se soltar e curtir a vida, o cheiro da autoridade saturnina logo se faz sentir, e o sujeito vai escolher o roteiro, alugar a casa, encher a geladeira, vigiar as despesas (as dele e as suas) e por ai vai…
Solícito e competente, sempre com o pezinho na realidade. Se você olhar bem fundo naqueles olhinhos verá o velho senhor dos anéis, Saturno, impondo formas perfeitas, consciente dos esforços, sacrifícios e dissabores que isso exige. Mas também são sensíveis e geralmente muito tímidos. Eu aprecio sinceramente a tenacidade do signo, é admirável como são constantes e determinados, enquanto descansa, carrega pedra!
Estabilidade, confiança, tradição e bons lucros é a alma do negócio, se é que vocês me entendem. Se você sabe apreciar o valor do compromisso, do mérito e do carisma dele, terá um parceiro para toda a vida que o apoia nos momentos difíceis e se sensibiliza de verdade se você for honesto em colocar suas limitações.
Saiba apreciar o seu charme e bom gosto, sua finura e delicadeza e tudo vai ficar bem. Via Capricórnio! Boa saúde, vida longa e dinheiro na conta!
(Tirado daqui)

domingo, 3 de julho de 2011

O PASSADO

"Porque preso no passado se morre a cada dia. E quanto a mim, eu prefiro viver. Ainda".
(Do filme: Cabo do Medo - direção de David Lynch)

Eu acredito em profundidades

Eu nunca fui uma moça bem-comportada.
Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida,
pra paixão sem orgasmos múltiplos
ou pro amor mal resolvido sem soluços
Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo.
Não estou aqui pra que gostem de mim.
Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho.
E pra seduzir somente o que me acrescenta.
Adoro a poesia e gosto de descascá-la até a fratura exposta da palavra.
A palavra é meu inferno e minha paz.
Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que me deixa exausta.
Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo.
Sei chorar toda encolhida abraçando as pernas.
Por isso, não me venha com meios-termos, com mais ou menos ou qualquer coisa.
Venha a mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar...
Eu acredito é em suspiros,
mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis,
em alegrias explosivas,
em olhares faiscantes,
em sorrisos com os olhos,
em abraços que trazem pra vida da gente.
Acredito em coisas sinceramente compartilhadas.
Em gente que fala tocando no outro, de alguma forma,
no toque mesmo, na voz, ou no conteúdo.
Eu acredito em profundidades..."

sexta-feira, 1 de julho de 2011

E se fossemos além, só um passo à frente?
Se fossemos mais fundo, somente um pouco a mais do que já fomos?
E se olhássemos além do que vemos, apenas alguns segundos, olhos nos olhos daqueles olhos que desviamos?

Se abandonássemos o caminho dos pés, que por vezes nos fazem tropeçar?
E se déssemos ouvidos aos lugares comuns ouvidos na infância?
E se ouvíssemos um segundo a mais, antes de formar a cega resposta que mais tarde será a causa da dor?

E se ao invés do primeiro, nos permitíssemos chegar em segundo, terceiro ou outro lugar em qualquer lugar que fosse?
Se o que valesse fosse apenas chegar, e chegando festejar, e festejando sorrir, e sorrindo abraçar quem nunca desejamos.

E se mudando de caminho, nos encontrássemos a nos mesmos, á margem, com todos os velhos sonhos, músicas, e amigos?
De que tamanho seria a dor se percebêssemos que estamos longe do que fomos?
Que nossos pés nos enganaram e nossos olhos mentiram?

Se repentinamente, buscássemos as diferenças?
Se os dentes afiados se transformassem em beijos de boas vindas?
Se escolhêssemos aprender sem dor?
Ainda seriamos os mesmos.

Adriel Gennaro

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Cheguei, sem querer, aonde meu coração queria chegar

"Não sabia que era precisamente esse fracasso que me levaria ao lugar que desejava. As correntes do rio profundo foram mais generosas que o meu remar contra elas. Não cheguei aonde planejei ir. Cheguei, sem querer, aonde meu coração queria chegar, sem que eu o soubesse."
Rubem Alves

terça-feira, 21 de junho de 2011

Cartas de amor

Cartas de amor são uma mídia obsoleta.
Talvez conheça poucas pessoas. ou talvez as pessoas que eu conheça não sejam tão amorosas assim. mas não conheço quem, hoje em dia, ainda escreva cartas de amor. a querência pelo instantâneo e a efemeridade dos proto-relacionamentos  substituiram as correspondências que demoram a chegar e precisam de interlocutores vestidos de amarelo e bolsa tira-colo. as cartas de amor não são fragmentos de um discurso amoroso dos nossos tempos.
Carregam uma carga diferente dos e-mails apressados com erros de digitação ou dos sms’s com abreviaturas bizarras. cartas são pílulas de amor táteis, é sentimento guardável. escrever exige tempo dedicado, rascunhos e aquele último suspiro indagando: “será que eu mando?”.
Confessamos coisas que não temos coragem de falar ou que se faladas talvez pareçam diabéticas demais. e mesmo se forem melosas e piegas, não vemos a reação do destinatário. é proteção. por isso nas cartas nos entregamos doses extras de sinceridade. escrever cartas a mão é dar caligrafia própria ao sentimento.
Correspondentes. as cartas de amor são sentimentos portáteis.

Te dou os meus sonhos

Sonhos são projeções do presente para doces futuros. são lugares nas histórias e músicas favoritas onde imaginamos estar.
te dou os meus sonhos para juntar com os seus. tenho coleções de lindos sonhos, diferentes cores para pôr-do-sol, mapas para se perder em países distantes, perfeitas tempestades para fazer voar monotonias e uma caixa cheia de brisa para quando estiver muito calor.
Dos seus sonhos eu não sei muita coisa. mas da minha parte é isso que posso oferecer. pedacinhos de caos que surgem e voam da minha mente enquanto estou dormindo, enquanto estou ocioso ou preso em caóticos trânsitos urbanos mas pensando  em lugares onde nossa nuvem polvilhada em canela e açúcar deseja estar.

As borboletas

Eu cuidei do jardim e elas vieram.

domingo, 19 de junho de 2011

Das insignificâncias

"A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado e chorei. Sou fraco para elogios."
- Manoel de Barros -

Previsão climática



ÁGUAS
CALMAS
EM MEU
MAR
ÍNTIMO.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Apelo:

Rapte-me, camaleoa.

Quando você acha...

...que já sabe todas as respostas, vem um espírito de porco tentando mudar todas as peguntas.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Não há dor infinita.

foto: Antonio Paim



“(...) Pode me tirar a compreensão, o perdão, os ossos contados como dias nas paredes da carne. (...) Pode me tirar o egoísmo e a paixão, a cultura que adquiri às pressas, a serenidade para julgar, a severidade do combate. Podes me tirar as metáforas, a fuga, minha saída do sangue. (...) Pode me tirar os excessos do mínimo, o idioma, meu receio de ficar sozinho. (...) Pode me tirar o colo, a sesta, a audição das escadas. Podes me tirar o desejo e pôr a inquietação em seu lugar. (...) Pode me tirar a liberdade que confundi com justiça porque nenhuma das duas se conheceu a tempo. (...) Não há castigo infinito. Não há dor infinita. Um dia a gente termina para começar, começa para terminar, refaz o percurso como se nada tivesse acontecido antes. Deixe-me apenas uma cadeira de palha, amarela, para olhar com piedade o que fui e me deslumbrar com as ruínas."

(Carpinejar)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Em ressonância profunda

" Eu soube naquele momento que não tinha necessidade de nenhum prazo para refletir; que teria saudades para sempre se a deixasse partir. Você foi a primeira mulher que consegui amar de corpo e alma, com quem eu me sentia em ressonância profunda; meu primeiro amor verdadeiro, para dizer tudo. Se eu fosse incapaz de amá-la de verdade, nunca poderia amar ninguém. Encontri palavras que nunca soubera pronunciar; palavras para lhe dizer que eu queria que permanecêssemos juntos para sempre."
(Carta a D., História de um amor, André Gorz)

quarta-feira, 4 de maio de 2011