terça-feira, 20 de novembro de 2012

Tua


Você me olha como se eu fosse a mulher mais linda do mundo. E, porque você me olha, eu sou. Nunca ninguém me olhou como você, eu digo. Você é que não percebe como os homens te olham, você responde. Minha primeira reação é refutar tua hipótese, mas tenho que admitir que ela faz sentido. Não reparo, mesmo, os olhares do outro. Escondo-me, arredia, temerosa. Medo de quê? Do que eu provoco no outro ou do que posso provocar em mim mesma? Ambos, talvez. Medo do descontrole. Descontrole é o que sinto quando você me olha com teus olhos de precipício, teus olhos de comer fotografia, teus olhos que enxergam quem eu sou quando sobrepujo o medo de não saber quem eu sou. Nesses momentos, sou menina, mulher, tímida, expansiva, voraz, contida, sou as duas faces da mesma moeda, sou todas as moedas do mundo. Sou tudo aquilo e nada disso quando você me olha com aquele olhar jocoso que me arranca um sorriso involuntário todas as vezes em que me despe. E nem precisa me despir, quando nos conhecemos eu estava vestida da cabeça aos pés, bota, calça comprida, casaco, cachecol, cabelo preso, não queria seduzir, queria me esconder, queria correr, e corri, e ainda corro, mas teus olhos sempre me alcançam, uma, duas, quarenta e três, cem, mil vezes você vai me pegar, e me despir, e eu vou fugir, e fingir, mas vou esperar, e vou gostar. Vou ser a mulher sensual, a neurótica chata, a menina boba, vou ser aquelas que sei, muitas que ainda não conheço e todas que você inventar com o seu olhar. Porque o que ele me diz, e é só o que preciso saber, é que posso ser qualquer uma - desde que seja tua. E eu sou.

2 comentários:

Besouro Blue disse...

".....quando você me olha com teus olhos de precipício, teus olhos de comer fotografia..." - Eu que nunca quis ser como Ian Curtis, Jim Morrison ou Kurt Cobain, já me sinto pronto para tal...

Felipe disse...

olhos de comer fotografia

Lindo texto, Fabi. Como sempre teus escritos vêm arrancados do peito mesmo.